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Transcrição:
Um sonho de Liberdade
Acordo ensopado de suor. Tive uma noite repleta de pesadelos. Sonhei com o juiz esticando o dedo na minha direção, gritando: "Você pensa que vai reduzir a pena escrevendo? Preso tem que costurar bola, se quiser remissão. A lei que faz sou eu. Entendeu?!" E eu respondo como numa oração: "Amém, amém, amém". Um dia na cadeia é barra. Andar pra lá e pra cá, pensar, comer, cagar, escrever, ler e reler... Entre um dia e outro, uma noite de sono atormentada. Quem disse que amanhã, pra variar, eu vou fazer algo diferente? Vou fazer sempre as mesmas coisas. Vou acordar na mesma hora, escutar a mesma batida de grades, ouvir o barulho das mesmas vozes e comer a mesma gororoba. Resistir na prisão é sinônimo de máximo sofrimento. Às vezes penso que estou ficando maluco, pego-me falando sozinho, andando como um robô. As palavras batem nas paredes, como um sonar, e voltam para mim, antes que eu possa pronunciar a palavra seguinte. São incríveis os papos que escuto, na sua maioría 'causos' e façanhas. Antes, escutava falar de prisões e ouvia casos escabrosos sobre criminosos, mas estava absolutamente enganado. Aqui, tudo é diferente do que eu imaginava. Os presos, são na maioría, muito educados. Acho que é porque todo mundo parece descolar uma faca, e todos temem levar uma 'pregada' de surpresa - como já vi acontecer. O guarda aparece, bate a chave e pergunta se quero sair para o banho de sol. A figura dele me impressiona. Imagino que o jovem, quando resolve tornar-se agente penitenciário, está fazendo uma opção, no mínimo, desesperada. É compreensível que as chances de arrumar um bom emprego hoje em dia, são mínimas. Todavía, no caso do agente, a opção é mesmo suicida. É como se ele estivesse preferindo a morte. Cada día de trabalho pode ser a véspera do funeral. Olho para ele com meu olhar cevado à rancor e digo: "Vou!". Ele responde: "Vai mesmo?", e sua voz tem uma doçura de um adeus. Eu sinto que ele está treinando, a cada día, para a grande partida. No pátio, a bola está furada. Os presos ficam dando voltas, como na pintura de Van Gogh. O tempo se esvaí, e somos recolhidos como bois ao tronco. De volta à cela, faço yoga na tentativa de aplacar a neurose e relaxar o corpo. Depois, ando como um bicho enjaulado, arrastando os pés sobre o piso de cimento esfregado por pés de outros desesperados que padeceram da mesma agonía qu eu, por anos a fio. Escuto o barulho na galeria e lavo o meu prato de plástico. A bóia é servida sempre na hora certa e consiste de feijão, arroz e mistura. O gosto não é satisfatório, mas não dá pra reclamar. Sei que milhares de pessoas lá fora não tem sequer o que comer. Depois do almoço, escovo os dentes e ando durante um meia horinha para ajudar a digestão. Passo as tardes lendo ou escrevendo. A biblioteca é farta e posso contar com os classicos da literatura, para prender o ócio e o tédio das tardes. A parte mais asfixiante da prisão, é mesmo a noite. Alguns tomam comprimidos ou fumam um 'baseado', para dormir e não vêm as horas passarem. Monteiro Lobato disse que o preso vive dias de cem horas. Acho que ele tinha razão e se refería às noites. É sem dúvida, a parte mais difícil do cumprimento da pena. Não conseguir conciliar o sono, com a luz controlada por fora, é insuportável. Assim, certa noite, sem conseguir dormir, comecei andar da porta até a janela gradeada, esperando o dia raiar. Aquela, prometía ser uma noite atormentada, não acontecesse um inusitado. Cansado de contar os passos, andei até a janela e fiquei alí segurando os 'pirulitos' da grade, durante horas, olhando as estrelas brilhantes, sentindo-me reconfortado pelo amparo das barras cruzadas. A prisão era a segurança e as grades, o meu ponto de apôio. Refletía que a liberdade era algo reservado para um pequeno grupo de privilegiados, livres de todos os diferentes tipos de prisões que acomentem os humanos: prisão de falta de dinheiro; prisão de falta de amor; prisão por doenças, deformidades, acidentes; prisão por delito; prisão por falta de felicidade... Eu sabía que o destino era uma coisa concebida para não ser entendida. Após algumas horas, eu estava completamente relaxado, como que hipnotizado; contemplando fixamente uma estrela que parecía se aproximar. Eu fiquei ali, atento. Imaginei que esta visão sería um prenúncio da minha liberdade, até que levei um susto, quando vi um raio da estrela se dilatar e penetrar na cela. O ambiente ficou todo iluminado numa incrível transição visual que descortinava uma bela mulher vestida com uma camisola transparente. Ela disse: - Eu sou Liberdade. Estou aqui para lhe trazer felicidade. - Demorou! - eu disse. - Quem espera, sempre alcança. Em seguida, um festival de luzes coloridas inundou o interior da cela, numa verdadeira celebração estroboscópica. Era como se eu visse o reflexo de milhões de diamantes iluminados por uma luz cósmica indescritível. Sem que eu esperasse, a bela Liberdade me estendeu a mão, e me conduzíu até o catre, me envolvendo num banho de amor celestial. Algo que eu jamais havía experimentado. Nada de amor carnal, mas um amor indescrit[ivel envolvendo mag[ia, relaxamento total, sem serpenteios, suores ou gemidos semitonados. Um perfeito congresso sensual onde o ouvir espiritual se confundía com uma canção escrita nas estrelas. Após esse ato de amor exuberante, caí no sono profundo e quando acordei, Liberdade havía desaparecido. O acontecido voltou a se repetir, cotidianemente. Até que um día, sem querer, deixei escapar a historia aos demais presos, no banho de sol. Imediatamente, eles passaram a inventar pretextos para encontrar Liberdade. Eu dei as dicas, epara minha surpresa, ela passou a dividir seus prestimos com os demais. Liberdade era para todos. Ela não recusava convites, até desaparecer para sempre. Eu voltei às grades, e pensei implorar para ela voltar, mas estava cansado de tudo. O destino havía sido cruel para mim, me colocando numa situação onde eu devería ultrapassar uma série de dificuldades e obstáculos. Passar por inúmeras transformações simbólicas de mente e ressurreição nessa jornada, onde tive que aceitar o destino, da maneira como ele se apresentou; como um desafío a vencer nesse meu tempo de provação. Assim, optei por uma solução definitiva: ou Liberdade voltara por livre e expontanea vontade, ou que me abandonasse para sempre. A estrela não hesitou. Seguiu seu caminho luminoso através do cosmo, sem olhar para trás. Foi assim, que conseguí imaginar o que sería a Liberdade. E isso, me colocava numa situação intolerável. Eu estava mais para a descrença do mundo que para as surpresas dos céus, que havía balançado a minha segurança emocional atrás das grades. Agarrando aos 'pirulitos', sentí o conforto da prisão me bater na cara e me saltar aos olhos: tudo que eu havía suportado... só por causa da Liberdade.
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