Autor: ARTHUR RIBEIRO NETO
Penitenciária: Centro de Progressão Penitenciária - CPP / DF
Título: Escrevendo a Liberdade

Transcrição:
Escrevendo a Liberdade

Quem me dera ter nascido um pássaro e poder voar de galho em galho, árvore em árvore. Experimentaria uma grande variedade de frutos e quando chegasse o inverno voaria para um lugar mais quente. Comeria de tudo que a natureza me desse e estaria feliz com os amores que surgiriam no tempo oportuno. Mas mesmo assim livre, poderia cair nas mãos de alguns insensatos que me lançariam numa gaiola minuscula e a pendurariam em uma parede. Eu, passarinho acostumado a grandes vôos, me sentiria tudo menos ave que voa. Desse meu novo lar, a gaiola, eu teria a visão de uma única paisagem e ver, enchergar já não seria mais tão belo, voar já não seria tão prazeroso e viver já não teria sentido.
Ou, quem sabe teria eu a sorte de nascer uma planta, um coqueiro ainda jovem cercado por coqueiros adultos que proporcionavam a mim uma sombra agradavel. Nessa praia onde eu, coqueiro, nasci a brisa marítima vinha toda manhã refrescar minhas folhas. Ou ainda quem sabe uma bela samambaia nascida em um regato de uma nascente de água doce. Mas mesmo assim, ambas plantas acostumadas com sua paisagem e rotina, poderiam ser retiradas dali de forma violenta por alguns insensatos e lançadas em algum lugar hostil. O coqueiro jovem certamente sentiria enorme saudade dos coqueiros adultos, que o cercavam e protegiam. Já a samambaia sentiria falta do frescor que a natureza lhe proporcionava, ficaria horas tentando escutar o barulho da água corrente e após longo tempo murcharia suas folhas com saudade do lugar onde nasceu e cresceu.
Pedra não, que pedra é fria e distante. Como é frio e triste um lugar só de pedras, como é fria a prisão.
Por fim, resta-me sonhar ter nascido o vento. Esse sim é livre. Ele sempre está em movimento, ora aqui, ora ali. Vento vai, vento vem, está em movimento e ainda movimenta outros corpos. De tudo o vento é livre, só existe um problema: o vento não sabe amar, logo não deve ser bom e sendo assim desisto dele também.
Enfim nasci homem, nem planta, nem bicho, nem vento, nasci homem. Embora traga comigo um pouco de cada coisa. Não foi escolha minha, apenas me dei conta certo dia de que era um homem. Uns dirão que foi obra do acaso, outras explicarão que não passo de um fenômeno natural e alguns afirmarão que foi providência divina. Mas não importa, sou homem.
E como homem que sou, vivo junto a outros homens e também na compania de plantas e bichos. Até aqui tudo bem natural, dirão alguns, outros rirão dos meus devaneios, porém o que realmente importa é que sou vivo socialmente, como o pássaro em seu meio e, o coqueiro e samambaia, cada qual em seus respectivos ambientes.
Longe dos sonhos e me desviando dos devaneios caio na realidade e só aí percebo que nada sei de pássaros, nem de plantas e muito menos dos homens. Se não nasci um pássaro não sei dizer como é a rotina deles, não sei certamente como são suas regras de convivência e o mesmo acontece com o coqueiro e a samambaia. Logo resta-me falar sobre homens, posto que sou um deles e tentar alcançar a força da liberdade com palavras que é o objetivo dessas linhas mal direcionadas.
Sobre os homens, o que dizer? São muitos, dominaram a terra, mudaram e transformaram paisagens. São capazes de coisas belíssimas e ao mesmo tempo são capazes de destruir a sí mesmos e aos outros. Se orgulhar, por serem racionais e por estarem no topo da cadeia alimentar, e também são tão frágeis. Tanta coisa já foi dita sobre eles que desejo parar por aqui para não cometer um pecado mortal e ferir a alma de tantos escritores que já não andam por aqui.
Liberdade! O que diria o pássaro, o coqueiro e a samambaia? Certamente diriam que não há nada igual, visto que um dia foram livres e no outro se viram de alguma forma distantes da amada liberdade.
Desculpe-me estimado leitor. Já estava eu de volta aos devaneios. Deixe-me voltar a realidade, ainda que nua e crua.
O que dirá o homem da liberdade? Pode ser que raciocine um pouco e depois diga coisas imprecisas, ou frases não terminadas. Tal homem pode até não conseguir colocar em palavras o que senti, mas certamente ele se atento, conseguirá ouvir o coração bater num rítmo diferente. É possível que encontremos algum homem a dizer que ninguem é de fato livre. Perfeito, é a opinião dele. Eu prefiro acreditar na liberdade e percebe-la em cada vã momento.
Imaginemos uma fruta que fosse descoberta agora, nesse exato momento. E nos fosse oferecida para prová-la. Certamente iríamos classificá-la com base em outras frutas já conhecidas. Parece-me que isso é a lógica. Só sabemos se é doce se conhecermos o azedo. Logo é preciso verificar a opinião de um homem que já perdeu a liberdade, para sabermos um pouco mais sobre essa tal liberdade. O que dirá tal homem? Acredito que causou certa curiosidade ao leitor tal pergunta.
Silêncio, silêncio para ouvir a resposta do homem que perdera a liberdade. Atenção, ele falará de liberdade.
Nada!
Um profundo silêncio se ouve. Não há palavras. Não se nota sentimento no olhar de tal homem quando perguntado sobre liberdade.
Assim como o pássaro que não pode ser compreendido por nós é o homem preso.
Assim como a samambaia e o coqueiro, que supostamente pensamos que estão quando longe de seu habitat natural é o homem sem liberdade.
Mais uma vez, o silêncio!

Arthur Ribeiro Neto.