|
Transcrição:
Eu acredito!
Eu acredito!
O nosso cotidiano está marcado pela divulgação maciça de uma violência que faz construir muros altos e grades reforçadas em casas e condomínios equipados com sofisticados equipamentos de segurança para quem pode pagar ou nos induz a defender ações punitivas extremadas contra os criminosos. A violência é um mal intolerável que precisa ser combatido. Pode parecer paradoxal alguém que se encontra em privação de liberdade falar contra a violência. No entanto, tanto fui vítima como contribuí para o seu aumento. Os presídios brasileiros tornavam-se verdadeiros depósitos humanos e enterram sonhos, vidas, histórias. Os que aí se encontram não podem ser considerados como os únicos responsáveis pelo crescimento da violência, mas devem ser vistos como o seu efeito, isto é, aquilo que a violência os transformou. Todavia, somos classificados como "lixo", "escória" do sistema. A prisão é um lugar tétrico em que encontramos pessoas cabisbaixas, deprimidas, irritadas, ansiosas, desesperadas, angustiadas e inseguras. Também há as crises decorrentes de rejeição dos amigos e do afastamento dos familiares. Contudo, é possível encontrar alegria, esperança, beleza, auto-estima no caos. Apesar do "calvário" que vivenciamos no cárcere, precisamos manter a esperança e perseverar na luta para superar esta situação, mantendo a fé (e fé em Deus), e, mesmo em privação de liberdade e restringido a um espaço físico, jamais se deixar conduzir à barbárie. O Estado precisa desenvolver ações eficazes que possibilitem a ressocialização de pessoas em privação de liberdade. Atualmente a ressocialização é um mundo de "faz-de-contas", e as ações voltadas para este fim quase não existem. As medidas tomadas pelo Estado visam, em sua maioria, reprimir os efeitos da violência, mas não prevenir. Digno de nota, é o fato de que está em pleno funcionamento dentro do presídio no qual me encontro, um curso de nível superior voltado para pessoas em privação de liberdade. Isto só se tornou possível devido ao interesse dos internos que sensibilizou e mobilizou órgãos e pessoas do Estado e da iniciativa privada, e hoje já estamos no segundo semestre do curso de bacharelado em Teologia pelo Instituto de Ciências Religiosas, tornando-se num fato pioneiro no sistema carcerário nacional. Dou graças a Deus por ser um dos protagonistas desta importante iniciativa, no que espero que alcance um número maior de internos. Já estamos trabalhando num projeto de pesquisa que visa apresentar a educação como uma das alternativas para a ressocialização de pessoas em privação de liberdade, por acreditarmos que a educação é uma das alternativas mais eficazes e emancipadoras para se alcançar este objetivo. É preciso acreditar na mudança interior do ser humano e na sua transformação social, pois cada um de nós possuímos a capacidade de auto-transcendência e de produzirmos nossas próprias histórias. É necessário investir na "re-educação" de pessoas em privação de liberdade, habilitando-as a serem reinseridas à sociedade, não porque são melhores ou piores, mas porque também são seres humanos. Todos nós possuímos outras qualidades e podemos melhorá-las cada vez mais. É preciso superar as desigualdades e injustiças que só aumentam a violência para que se possa construir uma sociedade mais humana, mais pacífica, mais justa. Aliás, a construção de uma paz durável só poderá ser feita através da justiça. Nessa nobre e sublime missão, que precisa contar com a participação de todos, todo e qualquer esforço será de suma importância para o seu sucesso. Afinal, gente é feita para brilhar, pois, só assim, construiremos a história como sujeitos e não vítimas. Eu acredito!
|