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Um cantinho do céu na zona sul de São Paulo

Eles vieram de Recife, Rio Grande do Norte, Sergipe e Rio de Janeiro. Chegaram aos poucos e logo foram tomando a região, até então desabitada. Hoje, o Cantinho do Céu, bairro no extremo sul da capital paulista, já se assemelha a uma grande cidade.

 

A voz dos moradores por melhorias na região chegaram por meio da Associação, batizada com o mesmo nome do bairro. “Conseguimos água, luz, asfalto, mas até hoje ainda temos problemas, precisamos de muitas outras coisas”, conta Severina Ramos dos Santos, líder comunitária.

 

Conhecida como Tia Silvia, ela chegou ao bairro há 35 anos, mas até hoje não conseguiu uma consulta médica ali. “Não temos posto de saúde, e a Associação é praticamente o único espaço que temos. É aqui que oferecemos consultas, lazer e educação aos moradores do bairro.”

 

Tia Silvia integra um grupo de alfabetizadoras que semanalmente transformam abrigos, albergues e associações em salas de aula. São ações resultantes de uma parceria firmada entre a AlfaSol e o Instituto Hedging-Griffo para alfabetização de mais de 700 moradores da região.


Sorte grande
Ela tem duas turmas e um grande amor pelo trabalho. Íris Félix Mortari é estudante de Pedagogia e há tempos atua voluntariamente nos trabalhos oferecidos pela Associação Cantinho do Céu. Da AlfaSol ela soube por uma amiga e logo se interessou: “Sabemos que nosso bairro é bastante carente e que precisa muito desse tipo de projeto. Foi por isso que topei e comecei a captar os vizinhos e os vários conhecidos no bairro. O projeto é extremamente positivo. Nossos alunos recebem o lanche e quem precisa ganha até os óculos. Temos todo o apoio que precisamos”, afirma.

 

Donas de casa que vieram do Nordeste e não tiveram a oportunidade de estudar compõem a maioria em sala de aula. Dona Lucineide Gomes da Silva é uma delas.

 

Natural de Recife, ela teve de trocar os livros pelo trabalho ainda na infância, depois que o pai abandonou a mãe e os nove irmãos. Pela dificuldade na leitura e escrita, perdeu várias oportunidades de trabalho. Hoje, com os filhos maiores e já na escola, Dona Lucineide resolver recuperar o tempo perdido. “No começo meu marido não gostou muito da ideia. Ele é daquele tempo em que a obrigação da mulher era lavar, passar e cozinhar. Mas com meus filhos me incentivando, ele logo cedeu.”

 

Feliz, ela conta que hoje já faz leitura e escreve corretamente. Até peru de Natal ganhou com um o cupom preenchido com a própria letra. Mas o grande sonho ainda está por vir: tirar a carteira de motorista. “No ano que vem, se Deus quiser, quero tirar minha carteira e ter o meu carro.”

 

Diante da sala cheia, a professora Íris vai completando o quadro negro. As letras vão contando a rotina de uma certa Maria e despertam nos alunos a vontade de contar as suas também. Passear, tomar chá, fazer o jantar e até paquerar são algumas das atividades imaginadas pelos alunos para Maria.

 

Após a insistência da turma, Domingas de Jesus Góes também vai até o quadro dizer o que acha que Maria faz e escreve timidamente: Ela se arruma, calça o sapato e espera o marido. E assume: “O medo não me deixa e eu fico acanhada pra ler na frente dos outros.” 

 

A aluna, que até então conhecia pouco as letras, conta o quanto aprendeu até agora. “Eu gosto é da Matemática. Não entendo, mas gosto”, sorri. Ela diz que tinha dificuldades no mercado, não sabia o preço dos produtos, mas agora para, pensa e consegue fazer tudo. ”Se um dia eu tivesse de escolher alguma profissão eu seria professora. E de Matemática.”

 

Foto: Iris Félix Mortari, em sala no Grajaú (SP). / Priscila Pires

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